Por Anacelia Panzan
O pico de vendas chega na mesma temporada em que o Brasil aprovou a jornada menor. A partir de agora, cada hora de trabalho vai valer mais, e cada minuto perdido na doca também.
Em 14 de outubro de 2026, o Senado aprovou por 75 votos a 1 o fim da escala 6×1. Na mesma semana, o varejo fechava suas projeções para a Black Friday.
As duas notícias saíram em cadernos diferentes. Mas, para quem vive a doca, elas são a mesma conversa.
O pico da Black Friday não ficou menor. Ficou mais longo.
A projeção da Confi, por meio da plataforma Neotrust, em parceria com o E-Commerce Brasil, é que a Black Friday de 2026 movimente R$ 13,3 bilhões no comércio eletrônico. Só a sexta-feira, 27 de novembro, deve responder por R$ 5,22 bilhões.
Mas o dado que mais me chamou atenção foi outro. Há cinco anos, os quatro dias da Black Friday concentravam 32,4% das vendas de novembro. Este ano, devem ficar em torno de 23%. O 11.11 já projeta R$ 3,17 bilhões, 21% a mais que em 2025.
Ou seja: o volume não diminuiu. Ele se espalhou. O que antes era um pico de quatro dias virou uma temporada de semanas. E semanas de pico exigem algo que está ficando escasso: horas de gente.
Com o fim da escala 6×1, a hora de trabalho fica mais cara e mais rara
Pelo texto aprovado, dois meses após a promulgação a jornada máxima cai de 44 para 42 horas semanais, com dois dias de descanso. Doze meses depois, chega a 40 horas, sem redução de salário.
Não é o caso de discutir aqui se a mudança é certa ou errada. Ela foi aprovada.
A questão agora é como operar.
E a conta é direta. Estudo da CNT estima alta de 10% no valor da hora trabalhada e de 8,6% nos custos com pessoal no transporte. Para manter o mesmo nível de serviço, o setor precisaria de cerca de 240 mil trabalhadores adicionais.
Só que esses trabalhadores não estão esperando na fila. Segundo a própria CNT, 44,6% das empresas de transporte rodoviário de cargas já têm vagas abertas para motorista.
Quando a hora fica mais cara e mais difícil de repor, a pergunta muda. Deixa de ser “quantas pessoas eu preciso?” e passa a ser “quantas horas da minha equipe estão virando entrega, e quantas estão virando espera?”
Onde a hora de trabalho mais se perde: na doca
Quem acompanha um centro de distribuição em dia de pico sabe a resposta. Ela está na fila da doca. No motorista que aguarda horas para encostar. No operador que abre e fecha porta dezenas de vezes por turno. Na porta que emperra e para tudo.
Até aqui, essas horas eram um custo oculto. A partir de 2027, passam a ser horas de um profissional mais caro, mais escasso e com menos dias disponíveis na semana.
É por isso que, para mim, a doca é o primeiro lugar para olhar. E a porta do baú, que parece um detalhe, mexe em três alavancas ao mesmo tempo.
1. Tempo
Uma porta Roll-Up abre e fecha mais rápido que a porta convencional e acelera embarque e desembarque. Alguns minutos por ciclo, multiplicados por dezenas de ciclos por dia e por semanas de pico, viram horas de equipe devolvidas à operação. Em caminhão climatizado, ainda tem o diesel: de 2 a 3 litros por hora parado na doca.
2. Esforço
Uma porta que sobe leve, com uma mão, reduz o desgaste físico de motoristas e operadores. Com menos dias de trabalho na semana, cada turno precisa render mais e cansar menos. Menos desgaste também significa menos afastamento, e afastamento é exatamente o que uma equipe enxuta não pode ter.
3. Previsibilidade
Porta que não trava não deixa o caminhão na oficina em plena temporada de pico. Manutenção corretiva já é cara em qualquer época. No meio de novembro, ela custa a entrega, o prazo e o cliente.
Use esta Black Friday como ensaio para 2027
Pelo calendário da emenda, esta deve ser a última grande temporada de pico operada inteiramente sob a lógica da escala 6×1. Isso a torna um laboratório valioso.
Minha sugestão é simples: meça.
- Tempo médio de permanência na doca
- Horas de espera por motorista
- Ciclos de carga e descarga por turno
- Paradas por falha de equipamento
Esses números vão ser a base para desenhar as escalas de 2027. Quem sair de novembro sabendo exatamente onde perdeu horas terá um mapa. Quem não medir vai descobrir pela folha de pagamento.
O que está nas nossas mãos
Não controlamos o calendário do varejo. Não controlamos a pauta do Congresso. Mas controlamos quanto do tempo da nossa equipe vira entrega, e quanto vira espera.
Sempre defendi que tecnologia não substitui pessoas. Nesta nova fase, o papel dela fica ainda mais claro: devolver tempo a quem faz a operação acontecer.
Fica a pergunta: se a sua equipe tivesse 10% menos horas a partir do ano que vem, quais você cortaria primeiro, as de entrega ou as de espera?
Quer saber quanto tempo a sua operação pode ganhar na doca? Fale com a PPW.
Se abriu, é PPW.
Fontes: Diário do Transporte (aprovação da PEC no Senado, 15/10/2026); CNT, estudo “Redução de jornada, mudança de escalas e bem-estar social no setor de transportes”; Confi/Neotrust e E-Commerce Brasil (projeções da Black Friday 2026).
Sobre a autora: Anacelia Panzan, da Anacirema Transportes e Logística e da PPW Brasil.